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A gota d’água ou de sangue?

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O momento que o continente europeu vive é de muito cuidado e merece uma análise bem mais aprofundada que a que vai ser apresentada por este texto. Mas, rapidamente, tentarei de modo bem sintético, elucidar o que acontece na atualidade européia frente à crescente aversão à religião islâmica no continente.
Os europeus, embasando-se durante o século XIX em teorias da pretensa superioridade branca, como o darwinismo social, colonizaram a África e a Ásia, tomando como justificativa para isso seu dever de civilizar os povos atrasados, o que se convencionou chamar de “fardo do Homem Branco”. Assim, os europeus exploraram como quiseram as riquezas e a população dessas regiões até após a II Guerra Mundial.
Nesse momento, quando as potências imperialistas européias entram em decadência, as nações desses dois continentes, há muito subjugados, se rebelam dando início aos movimentos de descolonização. Aqui passamos a analisar o quadro francês. A França não via com bons olhos a perda de suas colônias, muito menos as situadas no norte da África (as quais possuíam população predominantemente islâmica), o que fez com que ela mandasse inúmeros soldados para lutar por ela na região, inclusive estrangeiros (caso da famosa “legião estrangeira”).
Após inúmeras críticas de organizações internacionais, a França aceitou a perda de suas colônias e, após alguns anos, começou a onda migratória dos antigos colonizados para a pátria gaulesa. Num primeiro momento, enquanto os imigrantes eram filhos de ricos que iam estudar ou mão de obra barata para trabalhos braçais, não houve reatividade por parte do governo ou população francesa. Contudo, após alguns anos, uma segunda geração de islâmicos, já nascidos na França, começa a se tornar um problema.
Isso ocorre porque, por serem franceses, passam a ter direitos a todos os auxílios governamentais, sobrecarregando as contas do Estado, e sendo vistos pelos partidários da extrema direita como os responsáveis pela degradação dos costumes e cultura do país, além de gerarem mais violências, roubos e tudo que fosse relacionado a problemas sociais.
O movimento anti-islâmico ganhou força em 2010, quando o governo proibiu o uso de véus islâmicos em qualquer órgão público, inclusive nas escolas. Isso foi feito com a alegação de o Estado francês ser laico, contudo medidas similares não foram tomadas em relação a cristãos e judeus.
A crise econômica de 2008, que assolou boa parte das nações européias, também ajudou no crescente sentimento anti-islâmico, pois muitos franceses acusavam o Estado de estar falido por ter de auxiliar muitos filhos de imigrantes, o que acabou fortalecendo os grupos de extrema-direita, há muito adormecidos no país.
O episódio do massacre à sede do periódico Charlie Hebdo (07/01/2015), só apimenta mais o clima de tensão entre Europa e islâmicos, pois, longe de justificar o massacre, a liberdade de expressão deve ser situada por bom senso, onde exista um respeito às diversidades. Desenhar o profeta sagrado do Islã, Maomé, por vezes de forma jocosa, pode ser interpretado por parte dos franceses como apenas liberdade de expressão, mas tem pra alguns um cheiro de preconceito velado.
Seguindo o rumo que as coisas na Europa estão tomando hoje, fica quase impossível acreditar que a mesma França que já desfraldou um lema como: “liberdade, igualdade e fraternidade”, hoje possa agir de modo a mudar o sentido dessa premissa básica, exaltada desde a queda do absolutismo. Pois, se hoje há liberdade, os muçulmanos, franceses não vivem isso; se há igualdade não sentem isso; e, certamente, não contam com um sentimento fraterno, nem na França, nem em boa parte do mundo Ocidental.

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do Hexag.

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Sobre o autor

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Rozante

Rozante é professor de História no Hexag Vestibulares.

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